JORNADA LATINO AMERICANA DE FATORES HUMANOS

Dados inéditos sobre fadiga dos pilotos foram revelados no último dia 17 de abril durante a IV Jornada Latino Americana de Fatores Humanos e Segurança Operacional, evento promovido pelo CENIPA em Brasília.

O comandante Túlio Rodrigues, presidente da Associação dos Aeronautas da Gol (ASAGOL), divulgou os resultados de estudos de fadiga dos pilotos empreendidos pela Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil (ABRAPAC), sob a coordenação do comandante Paulo Licati, e os correlacionou com outras pesquisas nacionais e internacionais. A apresentação foi aberta com a explicação dos resultados do estudo “The Relationship between Brazilian airline pilot error and time of day“, publicado no Brazilian Journal and Medical Biologic Research em 2008. Nele, foram analisadas 155.326 horas de voo (seis meses) de uma grande empresa aérea. Neste período, registraram-se 1.065 erros por parte dos pilotos, ou seja, um erro para cada 146 horas voadas. A incidência relativa de erros de pilotos é 46% maior entre 00h00min e 05h59min, período em que o ser humano tem seu estado de alerta reduzido devido à baixa do ritmo circadiano.

Quase 80% de erros por fadiga – Outra empresa aérea brasileira de grande porte permitiu colher dados (apresentado em 2012 no simpósio da ICAO, em Lima, no Peru), indicando que 79% dos erros de seus pilotos tinham relação com a fadiga, conforme dados analisados utilizando o modelo bio-matemático Fatigue Avoidance Scheduling Tool (FAST). O estudo empreendido pela ABRAPAC, por sua vez, teve a participação da Prof. Dra. Frida Fischer e da Dra. Daniela Wey, ambas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além do Prof. Dr. Luiz Menna-Barreto da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo e do Comandante Túlio Rodrigues, Presidente da Associação dos Aeronautas da Gol (ASAGOL) e Pós-Doutor pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Um questionário foi aplicado a centenas de pilotos com perguntas a respeito dos ciclos de vigília/sono em um período de 72 horas em que eles tenham realizado voos. A maioria dos pilotos relatou fadiga em voo de cruzeiro, durante a descida e durante a aproximação para pouso. Dentre os principais sintomas fisiológicos foram ressaltados o bocejo e a dificuldade e manter os olhos abertos.

Horários em que o problema se intensifica – Um dos pontos principais da apresentação foi a análise estatística efetuada pelo comandante Túlio, que propiciou estimar a hora provável da fadiga em função do horário do início da vigília.  Os pesquisadores se surpreenderam com a concentração dos relatos de fadiga fora dos horários da madrugada. Cerca de 49% dos respondentes manifestaram a sensação de fadiga por volta das 10h da manhã, contra 43% dos relatos concentrados por volta das 3h da madrugada. Para o primeiro grupo (fadiga relatada majoritariamente por volta das 10h) os pesquisadores observaram uma vigília média de apenas 7 horas. Esse valor surpreendentemente baixo foi interpretado como decorrência do débito crônico de sono da população estudada (por volta de 7 horas e meia) e, provavelmente, de um cenário de fadiga acumulada.

Uso do software FAST nos estudos – No intuito de validar quantitativamente os relatos subjetivos de fadiga, os pesquisadores utilizaram o modelo bio-matemático SAFTE (Sleep, Activity, Fatigue and Task Effectiveness) implementado no software FAST (Fatigue Avoidance Scheduling Tool). Nessa abordagem, informações sobre as jornadas de trabalho e oportunidades de sono nas últimas 72 horas que antecederam ao relato de fadiga foram inseridas no programa, que calculou, entre outros fatores, a efetividade dos pilotos no momento do relato. Esse parâmetro de efetividade está relacionado com a capacidade de desempenho do indivíduo e é inversamente proporcional ao tempo de resposta ao PVT (Psychomotor Vigilance Task). De acordo com a análise estatística apresentada pelo comandante Tulio, a efetividade dos pilotos extraída do FAST apresentou comportamento normal com um valor médio de 73,8% sendo que, conforme apontado pelo autor do modelo bio-matemático (Dr. Steven Hursh), o risco nas operações aumenta em até 86% quando esse parâmetro de efetividade fica abaixo de 77%.

Propostas para mudar a legislação – Hoje, a profissão de aeronauta é regulamentada pela Lei 7.183/84. A legislação completa 30 anos de existência e, segundo especialistas do setor, já não atende mais aos requisitos de segurança de voo. Na Câmara dos Deputados tramitam duas propostas que alteram a jornada de trabalho da categoria. O PL 4824/12, de autoria do deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), e o substitutivo do PL 8255/14, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). O texto de ambas as propostas aumenta o número mínimo de folgas mensais, limita a jornada de trabalho a 44 horas semanais e fixa novas regras para a remuneração dos aeronautas, categoria composta por pilotos, copilotos, comissários e mecânicos de voo. Uma das novidades da proposta é o aumento do número mínimo de folgas mensais, que sobe para 12. Atualmente, esses trabalhadores têm, no mínimo, 8 dias de repouso remunerado por mês. Nos meses de janeiro, fevereiro, julho e dezembro, considerados alta temporada, será permitido que o número de folgas mensais caia para 10, conforme o texto. A nova legislação também determina que as empresas de aviação regular e de serviços de transportes exclusivos de cargas planejem as escalas de voos dos tripulantes com base em Programa de Gerenciamento de Risco da Fadiga Humana, de acordo com conceitos recomendados pela Organização de Aviação Civil Internacional (ICAO, sigla em inglês).

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