INICIATIVA DA ABRAPAC É ADOTADA EM INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES

Segue abaixo notícia veiculada no domingo, 30/8, na Folha de S.Paulo – lembrando que a ABRAPAC propôs a criação da Comissão Nacional de Fadiga Humana – CNFH – e também introduziu no Brasil os conceitos mais modernos desse tema, com a coordenação do comandante Paulo Licati, Gestor de Fadiga da Associação
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“FAB IRÁ ANALISAR VOZ PARA DETECTAR CANSAÇO DE PILOTO EM ACIDENTE AÉREO”
Por RICARDO GALLO – DE SÃO PAULO – 30/08/2015
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A Aeronáutica levará em consideração a análise da voz dos pilotos durante a investigação de acidentes aéreos. O objetivo é detectar eventual fadiga (cansaço) dos pilotos e descobrir o quanto isso contribuiu para o desastre.

A previsão é que a análise da voz passe a compor as investigações em 2017 ou 2018, diz o Cenipa (órgão da Aeronáutica que apura as razões de um acidente aéreo). O prazo se deve ao fato de haver ainda algumas etapas a cumprir. A principal delas é estabelecer um protocolo para orientar o investigador durante a apuração.

Será preciso definir, por exemplo, quando a fala de um piloto indicar fadiga. Há elementos para determinar isso, como bocejos, a duração e a frequência de pausas durante a fala e, entre outros, o tempo que o piloto demora a responder ao controle de tráfego aéreo, diz a tenente-coronel Laura Marcolino, chefe da assessoria de fatores humanos do Cenipa.

A voz é um dos elementos indicadores de fadiga. A partir da análise, será possível mapear o que contribuiu para o cansaço –ambiente de trabalho, cultura da empresa, carga de trabalho e condições de descanso, entre outras. Também permitirá “propor recomendações de segurança mais efetivas”, diz a tenente-coronel.

Na prática, a análise da voz igualmente supre uma limitação atual nas investigações. “As cabines não são filmadas. Em caso de um acidente, como você vai verificar o comportamento de um piloto? Uma dessas possibilidades é a análise da fala e da voz”, diz Paulo Licati, também envolvido no projeto como coordenador da comissão nacional de fadiga humana do Comitê Nacional de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, colegiado que é ligado ao Cenipa.

A fonoaudióloga Carla Vasconcelos desenvolve uma pesquisa para estabelecer parâmetros do que será considerado fadiga ou não e o método científico para tal. O trabalho será apresentado como doutorado na UFMG.
Ela irá comparar, por exemplo, a voz de um piloto em estado normal com a do mesmo profissional já cansado, para detectar alterações. A intenção, diz Carla, é avaliar entre cem e mil pilotos brasileiros.

RAZÕES

A medida permite aprofundar os motivos que levam um avião a se acidentar. Países como Estados Unidos e Canadá já levam em conta a voz para detectar o cansaço da tripulação –em maio, um psicólogo ligado ao NTSB (equivalente americano do Cenipa) esteve no Brasil para falar do tema.

Entre outros, o órgão americano constatou cansaço pela voz do comandante de um cargueiro da UPS que caiu em 2013 no Alabama. Os dois pilotos morreram na ocasião.

ACIDENTES AÉREOS

Brasil levará em consideração análise da voz para detectar cansaço em investigações de desastres

INSPIRAÇÃO
As agências de investigação dos EUA e do Canadá, que já apuram esse item nos acidentes aéreos

ITENS ANALISADOS

Duração de um discurso
Taxa de um discurso: divisão de sílabas por tempo
Duração de pausas num discurso
Número de pausas
Número de hesitações na fala
ESTÁGIO ATUAL
Pesquisadores e membros de uma comissão do Cenipa estão desenvolvendo a metodologia para ser aplicada no Brasil. A aplicação deve ocorrer até o ano que vem

O QUE PODE RESULTAR DA ANÁLISE DA VOZ
Recomendações de segurança que orientam as empresas a ajustar as jornadas de trabalho, por exemplo

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EXEMPLOS DE ACIDENTES NO PASSADO

USAir 427 – 8 de setembro de 1994
Uma das maiores investigações da história do NTSB, o órgão de investigação de acidentes americano. O avião caiu durante a aproximação para o aeroporto de Pittsburgh, ao enfrentar uma esteira de turbulência. A partir da análise da voz do copiloto, detectou-se uma manobra equivocada em um dos lemes. No desastre, 131 morreram

UPS 1354 – 14 de agosto de 2013
O avião cargueiro caiu durante aproximação no aeroporto de Birmingham, no Alabama. Piloto e copiloto morreram. Entre os fatores contribuintes estão o cansaço, a distração e confusão do comandante, analisados pela voz da caixa preta. A investigação também concluiu que estava com ausência de sono

NO BRASIL
Como não há metodologia, não foi verificado o cansaço na voz dos pilotos. Mas há elementos para suspeitar: na caixa-preta do Airbus da TAM que caiu em Congonhas em julho de 2007, o maior acidente aéreo em território brasileiro, o copiloto boceja –um dos indícios de fadiga.

http://app.folha.uol.com.br/#noticia/588531