Introduzindo a História da Aviação – Parte 5

Por: Cmte. Pedro Canabarro
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Os pioneiros da aviação comercial 

Se determinar qual foi o primeiro voo feito já é uma tarefa complexa e inexata, determinar o primeiro voo comercial nos parece algo mais complexo ainda. Pois, certamente, assim que se desenvolveram os balões e aviões, deve ter ocorrido a alguém imediatamente depois a ideia de ganhar dinheiro com eles. Então é bem possível que o autor de tal façanha tenha ficado anônimo perante a história. Porém, para nossa sorte, os anais da história conseguiram apontar alguns prováveis pioneiros.

A primeira empresa aérea do mundo a ser fundada oficialmente foi a alemã D.E.L.A.G, que iniciou suas operações em 16 de outubro de 1909 usando os famosos dirigíveis Zepellins. Ela não foi só pioneira no transporte sistemático de passageiros e cargas, mas também a primeira a usar um comissário de bordo nestes voos.

A empresa funcionou até o início da Primeira Guerra Mundial, sendo extinta então. Até 1914, a D.E.L.A.G havia transportado a incrível soma de 33.722 passageiros.

O dirigível LZ 127 Graf Zeppelin, da D.E.L.A.G.

O primeiro voo de comercial realizado por um avião, segundo os pesquisadores da história da aviação, foi o de um cargueiro em 7 novembro de 1910. Uma carga de 45 kg de seda no valor de quase 1.000 dólares foi levada da cidade de Dayton para a cidade de Columbus. O piloto, Phil O. Parmalee, realizou o voo de 100 km com seu Wright Modelo B.

Já o primeiro voo de passageiro registrado nos anais foi feito em 1º de janeiro de 1914, quando um avião da companhia área St. Petersburg-Tampa Airboat Line voou de St. Petersburg para Tampa, ambas na Flórida. O piloto, Tony Jannus, transportou Abram Phell, que pagou US$ 400 pelo voo – algo como quase US$ 10 mil nos dias de hoje.

Nos quatro meses seguintes, a empresa levaria 1.200 pessoas pelo trajeto proposto. Mas bastou as autoridades retirarem os subsídios da empresa que a mesma entrou em falência.

Podemos ver que passagens caras e falências de empresas aéreas parecem estar presentes desde os primórdios da aviação comercial.

Sikorsky Ilya Muromets

O primeiro avião projetado especificamente para o uso comercial de passageiros foi o russo Sikorsky IIya Muromets, que decolou para o voo de demonstração com 16 passageiros em 10 de dezembro de 1913. A aeronave contava com aquecimento, luz elétrica, banheiro, dormitório e poltronas de vime para a cabine de passageiros. Alta tecnologia para a época.

Infelizmente o projeto foi abortado pela guerra que se aproximava. Assim, o avião acabou fazendo apenas um voo comercial e o projeto foi descontinuado com o começo da Primeira Guerra mundial.

Campo dos Afonsos nos anos 40

No Brasil, a aviação comercial começa a engatinhar com o engajamento do governo na iniciativa de promovê-la no país. Um dos fatos que podemos elencar como o possível ato inicial aconteceu em 24 de fevereiro de 1914. Naquele dia, o Ministério da Guerra inaugurou oficialmente o primeiro aeródromo e a primeira escola da aviação do país, no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro.

Em 1918, é realizada a primeira tentativa de concessão pública para o transporte aéreo no país. Apesar de aparecerem dois cidadãos interessados, a iniciativa não prospera e não há desenvolvimento de projetos.

Em 1919, o então Ministério de Viação e Obras Públicas realiza estudos para a criação e implementação de legislação específica para o transporte aéreo.

Mais sete concessões públicas são realizadas até o ano de 1922. Três pessoas físicas e uma empresa, a Handley Page Ltda foram autorizadas a implementar linhas entre as principais cidades do país. Mas nenhum projeto saiu do papel. Muito provavelmente porque as concessões públicas não tinham regras ou legislação clara e específica estabelecidas até então.

Somente em 12 de janeiro de 1925 é que o governo baixa o decreto 16.083, regulamentando o serviço de transporte aéreo no país. E, por ato oficial, fixa através de um amplo trabalho as regras a serem obedecidas na navegação aérea.

Assim, criam-se regras e definições sobre espaço aéreo, tripulações, aeronaves civis, instalações de terra e normas gerais para o transporte aéreo e empresas aéreas. Também são esclarecidas e determinadas as condições a serem observadas nas concessões e na prestação do serviço aéreo.

Aeronave da Latécoère no Campo dos Afonsos, em 1925

Em novembro de 1924, a empresa francesa de Latécoère havia já chegado ao Brasil, para planejar e implementar linhas postais na América do Sul, com o objetivo de conectá-las às da África e da Europa.

A Latécoère solicita e consegue autorização especial para realizar um voo experimental que decolaria do Rio de Janeiro com três aviões em 14 de Janeiro de 1925, rumo a Buenos Aires após seis escalas intermediarias. A esquadrilha consegue chegar com dois aviões a Buenos Aires, 36 horas depois da decolagem do Rio. Poderia este ser considerado o primeiro voo comercial no país?

Porém, a Latécoère somente receberia a autorização para operar no país após se adequar a legislação brasileira, através da criação de uma empresa constituída no Brasil, a CBEA – Companhia Brasileira de Empreendimentos Aeronáuticos. A CBEA conseguiria a autorização de operação apenas em 9 de março de 1927.

Em 11 de abril, o empresário francês residente no Brasil, Marcel Bouilloux-Lafont, compra operação da América do Sul da Latécoère e assume as linhas, mudando o nome para Compagnie Géneréle Aéropostale, a qual começaria efetivamente a voar no país em 14 novembro de 1927.

Dornier Wal Atlântico

Neste intervalo, em 1926, chega ao Brasil a Missão Luther, com o avião Atlântico, pilotado por Fritz Hammer, fundador do Condor Syndikat. Como passageiro, vinha também o Dr. Hans Luther, ex-presidente e chanceler da República de Weimar.

O Condor Syndikat era uma iniciativa do governo alemão para promover os interesses políticos e financeiros daquele país na América do Sul, através da aviação. Iniciativa e processo já utilizados pela Alemanha em várias outras partes do mundo até então. Sua complexidade será abordada mais à frente, quando tratarmos de cada empresa aérea que surgiu no Brasil.

O avião chegou ao Rio Grande do Sul no dia 19 de novembro de 1926, tendo partido de Buenos Aires, e pousaria no Rio de Janeiro no dia 27 de novembro. Naquele mesmo ano de 1926, o Condor Syndikat pediria permissão especial e temporária para o estudo de uma linha entre o Rio de Janeiro e o sul do país.

O Condor Syndicat receberia a autorização especial de início de operação para o voo em 26 janeiro de 1927, e já começaria sua operação imediatamente, no dia seguinte. O voo decolou do Rio de Janeiro rumo a Florianópolis, onde chegaria na tarde do dia 29, após escalas em Santos e São Francisco do Sul. Foi realizado com o hidroavião Dornier Wal Atlântico, ainda com sua matrícula alemã D – 1012.

Muito embora esse seja o primeiro voo oficial de uma empresa aérea estabelecida no Brasil, mesmo que com autorização temporária e especial, muitos historiadores preferem determinar outro como o primeiro de caráter comercial no país: o voo experimental do Condor Syndikat, com o mesmo avião, na mesma rota, executado no dia 1º de janeiro de 1927.

Em junho daquele mesmo 1927, a Varig receberia a autorização de operação de voos comerciais de passageiros. Assim, estabelecia-se oficialmente como a segunda empresa aérea no país, dando início à história da aviação comercial brasileira.


Em breve, a parte 6 – fique atento a nossas mídias.