HISTÓRIA DA AVIAÇÃO NO BRASIL – PARTE 10

Por: Cmte. Pedro Canabarro
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Navegação Aérea Brasileira S.A. (N.A.B.)

A empresa Navegação Aérea Brasileira (N.A.B.) foi fundada no dia 28 de janeiro de 1940 com a promessa e a expectativa de ser a referência nacional em aviação e em administração de empresas aéreas. Isso se deu por iniciativa do empresário Euvaldo Lodi, ligado aos ramos de siderurgia, plantio e exportação de café. Lodi também foi político ativo, eleito deputado por Minas Gerais por várias legislaturas, e ajudou a fundar o SENAI. Foi ainda presidente da CNI e integrante do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.

Junto a Lodi estava Paulo Rocha Vianna, de família carioca tradicionalmente ligada à política e à diplomacia. Na parte técnica, a N.A.B. contava com pessoas basicamente licenciadas da aviação militar. O processo de treinamento tanto do pessoal administrativo como o pessoal técnico foi feito nos Estados Unidos, na empresa TWA.

    Euvaldo Lodi

A N.A.B. se caracterizaria ao longo de sua curta jornada por algumas inovações nas áreas administrativa e comercial, mas as expectativas de competência acabariam se dissolvendo conforme a empresa caia na vala comum da corrupção e das negociatas, ficando os objetivos apenas como esperança. Uma série de negócios obscuros e relações incestuosas com o governo federal marcaram sua história. Ambas as situações ainda carecem de uma pesquisa profunda e séria.

Dentre as inovações, vale mencionar que foi a primeira empresa a operar linhas ligando cidades do interior, caracterizando-a “quase” como a primeira empresa regional do país. Também foi a primeira empresa no Brasil a tentar operar como “low fare”.

Mas o que realmente a caracterizaria seriam os generosos subsídios e auxílios governamentais, incluindo nisso uma intervenção, que passou seu controle administrativo para o Estado. A N.A.B. ficou igualmente marcada pelos negócios obscuros de compra e venda para a Panair e, posteriormente, para o Loyd Aéreo, até ser incorporada pela VASP.

A N.A.B. iniciou suas linhas fazendo a ligação entre o Rio de Janeiro e Recife. O voo, que contava com escalas em Belo Horizonte, Bom Jesus da Lapa e Petrolina, era realizado com o bimotor Beechcraft 18 adquirido em 1941. Além de realizar esse voo, a N.A.B. foi a responsável por pavimentar as pistas de Bom Jesus da Lapa e Petrolina, bem com construir a infraestrutura destes aeroportos.

Nessa rota não havia concorrentes, pois as grandes empresas da época faziam a ligação entre o Sudeste e o Nordeste através de rotas pelo litoral. Ainda em 1941 a N.A.B. receberia mais um bimotor Beechcraft 18, um monomotor Beechcraft 17 e um Farchild 24.

No final de 1941 a N.A.B. recebeu seu primeiro subsidio governamental, de cinco mil e quinhentos réis. No começo de 1942, o governo abriu a carteira para a N.A.B. e deu constantes ajudas financeiras. Em maio, mil setecentos contos de réis; em agosto 6 mil contos de réis.

Lockheed Lodestar

Com essa ajuda, a N.A.B. aumentou sua frota com dois bimotores Lockheed Lodestar e um monomotor Stinson Reliant. Inaugurou as linhas Petrolina-Belém e Petrolina-Teresina.

Em 1944, a N.A.B. recebeu mais oito milhões de cruzeiros e adquiriu outros três Lodestar. Em 1945, a N.A.B. recebeu um empréstimo de 25 milhões de cruzeiros, com carência de 10 anos. Em 1946, a N.A.B. incorporou os Douglas DC3 em sua frota, comprando dois aviões novos, ao invés de adquirir excedentes de guerra.

Um deles foi o penúltimo DC3 fabricado pela Douglas. Era o PP NAM, cujo paradeiro, infelizmente, não é conhecido. Em 1947, a N.A.B. incorporou mais um avião DC3.

DC-3 PP-NAM

O surgimento de inúmeras empresas aéreas no país após o final da Segunda Guerra Mundial aumentou a dificuldade financeira da N.A.B., que em 1948 suspendeu sua operação. Sua falência veio em agosto de 1948.

Ainda em 1948, o Governo Federal resolveu assumir o controle da N.A.B.. Mais dois DC3 foram alugados para se somarem à pequena frota da empresa, operando linhas do Rio de Janeiro para Montes Claros (MG), Governador Valadares (MG) e Vitória (ES). Em 1954, reduziu-se a apenas uma rota e três pilotos.

Em 1957, o empresário Dilvo Peres assumiu o controle e as ações da empresa por 60 milhões de cruzeiros, aparentemente em uma parceria com a Panair. Mais um episódio da história da N.A.B. que merece uma profunda investigação. A Panair vivia talvez seu melhor momento, dominando as linhas internacionais e extremamente forte nas linhas nacionais. Por motivos até hoje não muito claros, resolveu transferir a maioria de suas linhas domesticas e boa parte de seus aviões DC3 para a N.A.B..

Com esse investimento de peso da Panair, a N.A.B. tentou inovar e cria o primeiro serviço de tarifas baixas e serviço reduzido no país. Porém, tal iniciativa não salvou a empresa e ela foi novamente vendida, agora para o Lóide Aéreo.

Em seguida, em novo imbróglio, acabou adquirida pela VASP e fadada à liquidação. Até 1984 encontrava-se ainda em liquidação judicial.

A Navegação Aérea Brasileira surgiu como a primeira empresa aérea brasileira com capital totalmente nacional. Tentou inovar em todas as aéreas, porém nunca se esquivou das negociatas do setor. Teve, sem dúvida, sua importância histórica e, infelizmente, é mais uma empresa cujo acervo praticamente desapareceu da memória da aviação nacional.